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Os 'rolezinhos' e o apartheid brasileiro

Por Wadih Damous

No penúltimo fim de semana a Polícia Militar usou balas de borracha, cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar jovens que participariam de uma manifestação denominada "rolezinho" no Shopping Itaquera, em São Paulo. O evento tinha sido convocado por meio das redes sociais. Segundo a PM havia cerca de mil jovens. Em sua maioria, negros e adolescentes, moradores de bairros da periferia.

 

O shopping teve suas portas fechadas e puderam entrar apenas pessoas que a polícia e os seguranças identificaram, por critérios próprios, como não participantes do "rolezinho".

 

A polícia cumpriu uma ordem judicial. O shopping obtivera uma liminar na Justiça proibindo a realização de "rolezinhos" em suas dependências. Outros cinco shoppings obtiveram liminares semelhantes.

 

Os jovens abordados pelos policiais tiveram as mochilas revistadas e foram obrigados a se identificar e a fornecer o endereço. Dez deles, maiores de idade, acabaram detidos e estão sujeitos a uma multa de R$10 mil.

 

As matérias de jornais atestam que a polícia não encontrou qualquer material comprometedor, como armas ou drogas, com os manifestantes. Tampouco foram registrados furtos ou roubos nas lojas, segundo a própria administração do shopping.

 

Mas o que é exatamente o "rolezinho"? É um simples passeio por shoppings de grupos de jovens pobres, que no seu dia a dia não freqüentam esses templos de consumo. Nessas manifestações eles não cometem qualquer crime. Simplesmente se divertem ao apreciar o receio que sua presença causa em algumas pessoas da classe média e nos lojistas. É como se estivessem dizendo: "Estamos aqui. Existimos!"

 

No fundo, é uma forma bem humorada de mostrar a existência de um apartheid social na sociedade brasileira.

 

A reação dos shoppings, ao recorrer à Justiça, não deixa de ser uma confissão da existência do apartheid. A decisão judicial proibindo os "rolezinhos" e multando quem os pratica mostra que esse apartheid conta com a cobertura de parcelas do Judiciário. Aliás, cabe a pergunta: decisão semelhante teria sido tomada se, em vez de jovens da periferia, um grupo de jovens de classe média alta se dispusesse a fazer também seu "rolezinho"?

 

Certamente não. Resta saber qual a base legal para que juizes concedessem as liminares proibindo os "rolezinhos". A proibição foi flagrantemente ilegal.

 

Afinal, o Brasil não é a África do Sul dos tempos do apartheid.

 

Ou se pretende que seja?

 

Wadih Damous é presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio

 

Fonte: http://bit.ly/1eIz3X9.

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